quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Cotas para baixinhos, por favor

A discussão sobre cotas atingiu a minha faculdade como rastro de pólvora. Veio de fininho, como quem não quer nada, e agora, já alcançou um estágio de rebuliço total. Antes, o debate se limitava apenas em decidir – e rápido – se as cotas seriam ou não aprovadas. Eu sempre fui a favor. Primeiro, porque já passei no vestibular. Ou seja, sendo muito sincero, tanto faz quem vai entrar agora que já estou aqui. Vai ser tudo calouro mesmo, de cabeça raspada e rosto pintado. Segundo, porque eu sempre acreditei que a forma de avaliação do vestibular é ineficiente e injusta. Com as cotas, sei que vai continuar sendo. Mas elas ao menos nos tiraram da inércia, nos obrigaram a propor soluções alternativas, a berrar, a xingar, seja contra ou a favor. Acabaram com a nossa apatia, as malandrinhas...
O engraçado é que as cotas ganharam tanta popularidade que agora estão sendo até subdivididas, como uma classe científica. Antes, ao que eu me lembre, era só cota. Agora tem cota racial, cota social e acho que até cota sócio-cultural, que é a que enquadra os índios. Não sei muito bem as subdivisões, mas já percebi que nesse samba do crioulo doido, está todo mundo querendo tirar uma boquinha. Aqui na UESB, por exemplo, estão propondo cotas para filhos de funcionários da instituição. Eu, hein? Não consigo entender porque alguém que é filho de uma pessoa que trabalha na faculdade tem mais direito de entrar nela do que alguém que é filho de alguém que trabalhe como advogado. Ou alguém que trabalhe como dona-de-casa. Ou alguém que trabalhe como político. Ou alguém que seja desempregado.
Bem, depois dessa, resolvi dar meus pitacos e passar as minhas propostas de cotas também. A primeira é para baixinhos. Nós, desafortunados verticais, temos grandes problemas, vocês hão de convir, em alcançar o topo da escala social. Estamos sempre sendo vistos de baixo, com uma descrença que beira o ateísmo. Outro dia, em minha primeira (e última) aula de dança de salão, o professor mirou-me de alto a baixo (tudo bem, não de tão alto assim) e disse, exasperado:
- Você quer aprender a dançar, assim tão baixinho?
Respondi-lhe, de pronto, que Charles Chaplin tinha meu tamanho e dava muito bem o seu recado no sapateado. Ele não parecia conhecer Charles Chaplin, o que me deixou, assumo, bem satisfeito. É esse tipo de tratamento que me é dado o tempo todo. Talvez, no meio jornalístico, a altura até não atrapalhe tanto, contanto que eu não queira trabalhar na Globo, é claro. Mas imagine o sofrimento da minha classe em outros meios? Os pintores baixinhos possuem limitações muito maiores em seu desempenho, por exemplo. Enquanto alguém com um metro e oitenta já está pintando a parte de cima da parede, nós estamos batendo na porta do vizinho e pedindo uma escada emprestada. O mesmo vale para o eletricista baixinho que precisa trocar uma lâmpada, ou o cozinheiro baixinho que precisa pegar um ingrediente importante para a receita naquela parte de cima do armário.
E além dessas, existem inúmeras profissões em que sofremos pela falta de tamanho. Nossas crianças, digam de passagem, aprendem desde cedo a nos desmerecer. Quem nunca se divertiu com um Cebolinha ou um Cascão travesso, chamando a Mônica de “gorducha (“golducha”, no caso do Cebolinha), baixinha, e dentuça”? E que os gordos e dentuços não me venham reclamar também. Já existem por aí SPAs, comidas dietéticas, diminuição de estômago, e aparelhos dentários. Esticador de tamanho, nenhum cientista procurou inventar. As mulheres baixinhas, sortudas que são, podem até disfarçar com um salto alto. Mas isso só atrapalha a nós, os desmerecidos masculinos. Ficamos mais baixos até que as nossas mulheres baixas.
Merecemos, depois de tantos anos de sofrimento, um reconhecimento à altura. Por isso, cota para baixinhos, por favor. Se elas não forem implantadas rápido, as conseqüências podem ser drásticas. Nós, os baixos, teremos que nos utilizar de artimanhas mais baixas ainda para vencer na vida. E as cadeias ficarão lotadas de baixinhos delinqüentes, o que até resolveria o problema de superpopulação carcerária, vá lá. Em contrapartida, atrapalharia mais ainda o nosso convívio em sociedade, pois todos iam associar a baixa estatura ao aumento da violência. Por fim, seríamos obrigados a nos exilar de todos vocês, maiores de um metro e setenta, e procurar um lugar tranqüilo para nos acomodar.
Nesse momento, vocês iam dar por nossa falta, eu aposto. Ninguém mais bateria o recorde de “maior número de pessoas dentro de um Fusca” no Guiness, ninguém mais conseguiria se enfiar naquele buraco embaixo do armário para pegar aquela chave perdida, ninguém mais compraria roupa tamanho “P”, o que acarretaria em um maior uso de tecido, e o conseqüente aumento do preço das roupas. E, o mais importante: vocês, medianos malditos, iam se sentir baixinhos pela primeira vez, e vocês altos desproporcionais, se sentiriam bem menos altos. Um complexo de inferioridade de nível mundial alcançaria o seu estopim. Vocês, pela primeira vez, entenderiam o que nós sentimos.
Não precisamos, no entanto, alcançar esse patamar tão drástico, é claro. As cotas seriam o primeiro passo para nos integrar novamente à sociedade. E, diferente das outras minorias sociais, a nossa seria a única em que o critério de seleção seria, impreterivelmente, ser, de fato, uma minoria. Já vejo até o slogan da campanha: "A vida é feita de altos e baixos. Não discrimine". A lista de chamada seria organizada não em ordem alfabética, mas em ordem de tamanho. Nenhum atestado de sangue indígena, ou negro. Pela primeira vez, o seu tamanho seria sim o seu documento. Sem ofensas. Já consigo ver a conversa entre amigos:
- E aí, cara, conseguiu passar por cota?
- Poxa, cara, tô quase lá. Já chamaram todo mundo que tem um metro e sessenta e um. Agora tem uns três com um e sessenta e dois pra depois eu entrar.
- Você tem um e sessenta e três, é?
- Até me esforcei pra ter menos, tirei a sola do tênis, dobrei um pouco os joelhos, tudo para passar na seleção. Mas nem deu, os caras perceberam.
Bem, nesse ponto do texto, acabo de perceber que não consigo, por mais que tente, escrever sobre algo sério – e manter a seriedade sobre o assunto por muito tempo. É melhor parar por aqui. Da próxima, acho que vou defender cotas para canhotos...

Um comentário:

Carol disse...

Tah seu baixinho.
obrigada por nao ter me apresentado seu blog antes ¬¬
sou tao baixinha assim que vc n nota a minha importancia e n deseja dividir as coisas legais de sua vida?????
to me sentindo uma amiga pequena..
hihihihihihihihi =P

adorei o texto!
sem ironias..