terça-feira, 4 de setembro de 2007

Um ensaio sobre a estupidez

Três da manhã. Pela sala, uma infinidade de fitas de videogame se confundem com controles analógicos, caixas de pizza e game boys portáteis. Restam, para todo aquele grupo de nerds insones, já cansados de zerar pela milésima vez os mesmos jogos, duas alternativas. Ou assume-se que a monotonia já está penetrando o ambiente, que dezenove anos já não é mais idade para ficar brincando uma madrugada inteira de dar tiros e espadadas virtuais uns nos outros, que aquelas piadas sem graça já ultrapassaram completamente o número de vezes que uma piada sem graça pode prudentemente ser repetida, e que é hora de dormir, acordar cedo e ir para casa no dia seguinte decidido a tornar-se homem de verdade, arranjar um emprego sério e nunca mais encontrar esses imbecis que não fazem nada a não ser repetir seus feitos antigos em um jogo de Pokémon que ninguém lembra mais, ou parte-se para a segunda opção: discutir sobre quadrinhos.
Como é de conhecimento geral que amanhã cedo ninguém vai ter disposição nenhuma para tornar-se um homem de verdade, arranjar um emprego sério, e nunca mais encontrar esses imbecis que não fazem nada a não ser repetir seus feitos antigos em um jogo de Pokémon que ninguém lembra mais, porque todo mundo vai estar com o bucho cheio de pizza para ser digerida, um dos patéticos seres faz o primeiro comentário:
- Vocês viram que o Capitão América vai morrer?
Para quem não entende nada de quadrinhos, cabe aqui a explicação do que se quer dizer com essa frase. Sabe quando alguém na mesa de um bar inicia uma discussão sobre as CPIs que estão acontecendo, os aviões que não estão decolando e os ministros que estão pouco se lixando com o que está acontecendo, porque quer, com isso, adentrar em um severo debate em que a unanimidade dos presentes é de que o governo é uma merda, o presidente é um imbecil e que foi um erro votar nele? É algo assim que se pretende ao comentar a morte de um personagem de quadrinhos. A partir daí, todos vão xingar os interesses comerciais das editoras, dizer que os roteiristas são uns imbecis e que é um erro continuar comprando esses caça-níqueis que as revistas se tornaram. E, assim como na próxima eleição aqueles que estavam no bar não vão ter dúvidas em votar novamente no presidente atual, no próximo dia esses que estão na minha casa não vão ter dúvidas em comprar as revistas novas que chegaram na banca. Continuemos com o ritual:
- O Joe Quesada é um imbecil. Como é que o cara promete que enquanto ele for editor-chefe da Marvel, ninguém ressuscitava e já ressuscitou uma porrada de gente? Só nos X-Men, metade já voltou do túmulo: Magneto, Psylocke, Colossus... como é que ressuscitam o Colossus, aquilo é que foi morte bonita! Agora já vai matar o Capitão América, pra aumentar a tiragem da revista, e em dois meses, vai ressuscitar o cara, só pra aumentar a tiragem da revista de novo. E vai ter palhaço pra comprar quando o cara morrer e quando o cara voltar a viver. Quer apostar?
- Você não vai comprar não?
- Sou retardado de dar dinheiro pra esses caras?
Não acredite. Ele vai comprar. Todos nós vamos comprar. Por que? Porque a morte de um personagem-chave da Marvel dá fôlego para a continuidade dos quadrinhos, revitalizando todas as outras revistas que vão ser, de alguma forma, afetadas por essa morte. A revista dos Vingadores, por exemplo, que vão perder seu líder. E a revista de todos os integrantes dos Vingadores, que vão sentir tristemente a morte de um dos companheiros, como as do Homem-Aranha e do Wolverine. Mas há um outro motivo, bem mais eloqüente: somos todos retardados de dar dinheiro para esses caras.
- Se fosse para matar, que matasse para sempre. O cara tá vivo desde a Segunda Guerra Mundial, merece descansar em paz. Toda hora tiram ele do túmulo. E a morte podia ser bem impactante, tipo se um dos mocinhos matasse ele sem querer na Guerra Civil. O Homem de Ferro, sei lá.
- E desde quando o Homem de Ferro bate no Capitão América, rapaz? Ele ia sair em pedaços numa luta dessa. Não matava o Capitão nunca.
- Não matava? Aí, você pirou. O cacete que não matava. A tecnologia da armadura do Homem de Ferro mete porrada no Hércules, quanto mais no Capitão América, que só tem aquele escudo de adamantium.
Essa já é a segunda etapa da discussão. É quase como se em um fim de noite, os carinhas que eu citei lá em cima, os do bar, desistissem da política e fossem falar de futebol ou mulheres. E o Palmeiras é melhor que o Vasco, e a Silvinha é melhor que a Paula, e se eu fosse aquele goleiro, e se eu pegasse aquela mulher... a discussão só vai ter fim quando todos perceberem que já se pediram umas cinco saideiras e que todas as mulheres citadas são areia demais pro caminhãozinho deles, e que eles estão muito barrigudos pra serem goleiros até de time da quinta divisão. No nosso caso, a discussão acaba depois que, de herói pra herói, chega-se no Super Homem, já da outra editora, e há quase consenso de que esse é imbatível. Mas sempre há umas tentativas frustradas de vitória:
- O Apocalypse.
- “Apocalipse” da Marvel, “Apocalypse” da DC, ou o “Apocalipto”?
- O da DC, com “y”. Aquele ganha.
- Como é que ganha, rapaz, se os atributos dele são todos menores que o do Super Homem? Tá lá na Enciclopédia da DC.
- Mas a Enciclopédia da DC que tu tem é do ano passado. O Apocalypse andou dando uma graduada nos poderes, a desse ano vai ser diferente.
- Então espera a desse ano chegar que a gente discute.
- O Super-Homem da Terra 2.
- É Super-Homem do mesmo jeito. O que você quer dizer com isso é que só o Super-Homem vence do Super-Homem. Se for assim, venci a discussão, o Super-Homem é imbatível, ganhei.
- O Thor. O cara é um deus, porra.
- Deus ou não, perdeu naquele embate clássico Marvel versus DC de 1984.
- Tu não era nem nascido...
- Mas li na biografia do Thor.
- O Thor com cryptonita.
- Ah, não apela. Primeiro, que o Thor é da Marvel, e não tem cryptonita na Marvel. Segundo, que a gente combinou que não valia essa porra de “não-sei-quem-com-cryptonita”, que é esculhambação.
- Primeiro, se o Thor enfrentou o Super-Homem nessa tal batalha de 1984, poderia ter roubado alguma cryptonita do cinto de utilidades do Batman. O Thor é tão veloz que o Batman nem veria. Segundo, se é pra impor limitações, beleza. O Flash ganha do Super-Homem na corrida.
- Essa tu viu em Lost. Vai ficar roubando afirmação de seriado agora, é? E se o Thor roubou cryptonita do Batman, por que não usou já naquela batalha e venceu?
- Porque ele é um deus, quis ser misericordioso.
- E misericórdia é apanhar até perder o martelo e voltar de olho roxo pra casa?
- Como é que eu vou entender os desígnios divinos?
- Ah, inventa outra.
E eles inventam outra, e mais outra e mais outra. Quando decido ir para cama e sair da sala, já estão citando o Bizarro, um anti-herói que é o exato oposto do Super-Homem. A argumentação é clara: o Bizarro é muito burro pra ganhar uma batalha. A contra-argumentação é, no mínimo, apelativa:
- Na queda de braço ele ganha!
Fecho a porta do quarto cansado. Cansei dessas disputas inúteis. Ganha quem for mais rentável pra editora, como é que ninguém sabe disso? Amanhã acabou: vou arranjar um emprego. Se me perguntarem o que eu sei fazer da vida, vou ter que pensar o que dizer. A minha maior conquista até hoje foi zerar todos os Pokémon de Game Boy já lançados, com todos os Pokémon capturados. Cinco vezes cada um. Mas ninguém mais lembra de Pokémon. Droga! Talvez até funcione em uma loja de videogames. É isso, vou procurar em uma loja de videogames. É um senhor currículo ter zerado tantas vezes tantos Pokémon diferentes. Amanhã bem cedo vou procurar uma. Agora não, vou tentar dormir.
De repente, uma súbita inspiração vem à cabeça. Perco o sono e o cansaço de imediato, e levanto da cama aos pulos. Corro para a sala, inebriado com a sensação de ter descoberto o maior dos segredos:
- O Goku, de Dragonball Z. O cara bate o Super-Homem de longe!
E lá vamos nós de novo.

Um comentário:

thereza disse...

hahaha, adorei o texto.
sempre me lembro de sergio qd falamos do capitao america :D